Espiritualidade
Sobre a Espiritualidade
Confira abaixo nossos artigos e textos sobre a espiritualidade mariana, missionária, kolbiana e da Igreja.
Nós temos que Ressuscitar!

Durante a propícia preparação de 44 dias, incluindo os domingos, nosso coração ansiava pelo “Canto do Aleluia!”. Um Canto de alegria e reconhecimento a Deus pela oportunidade de trilhar esse caminho rumo à Páscoa e, vale dizer, sempre unidos à sua e nossa Mãe, Maria.
Quinta-feira Santa: o Grande Dom da Eucaristia
Sabemos pelos relatos dos quatro Evangelistas que Jesus pediu aos discípulos que preparassem a Páscoa, indicando-lhes até mesmo o lugar.
Tradicionalmente, a preparação da comida para o Pessach (Páscoa dos Judeus) é um esforço coletivo da família, mas recai historicamente sobre as mulheres da casa a responsabilidade pela execução das receitas festivas e pelo rigoroso cuidado com as leis alimentares. Podemos intuir então, que Nossa Senhora também deveria estar lá, para preparar as receitas tradicionais e para a organização da cozinha.
O Lava-pés
São João (13,1-15) narra o lava-pés, onde Jesus, na última ceia e ciente de sua paixão, demonstra amor extremo ao lavar os pés dos discípulos, invertendo a lógica de poder. Ele estabelece o serviço humilde como o exemplo supremo para seus seguidores: “Se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros”.
Como é bela e clara a didática de Jesus! Ele, o Senhor e Mestre com seu exemplo de humildade e serviço, mostra que é perfeitamente possível para os discípulos e também para nós esse serviço mútuo de amor, humildade, solidariedade, proximidade e compromisso com os irmãos.
Como afirmou Frei Luigi Faccenda – “com este exemplo, Jesus nos disse que não é suficiente pensar ou dizer: quero viver o amor a todos; é necessário amar concretamente e no serviço”. E ainda, Frei Faccenda nos apresenta a atitude de Frei Kolbe que fala por si só:
“Frei Kolbe exemplificou este aspecto do amor recíproco. O seu coração se doou generosamente a todos; este seu doar-se não lhe foi roubado nem mesmo no campo de concentração. Eis o que escreveu dele uma testemunha daqueles dias: “Como era grande, incomensurável e maravilhosa a sua humanidade! Era tão bom! Amava a Deus mais do que a si mesmo. Que apóstolo! … Um dia colocou um pedaço de pão no meu bolso e disse: ‘Você é jovem e tem mais necessidade do que eu’”. (Luigi Faccenda – Só o Amor Constroi!)
A Instituição da Eucaristia
Porém, sem dúvida, o ponto focal e mais importante da Quinta-feira Santa é a Instituição da Eucaristia.
São Maximiliano encantado e profundamente agradecido pela sensibilidade de Jesus de querer permanecer conosco, escreve em forma de diálogo, um belíssimo artigo em 1919:
“O teu Coração não permitiu que eu me nutrisse unicamente das lembranças do teu imenso amor. Permaneceste nesta desprezível terra no santíssimo e admirável Sacramento do altar e agora vens a mim e te unes estreitamente comigo sob a forma de alimento… O teu Sangue já corre no meu sangue, tua Alma, ó Deus encarnado, se compenetra com a minha alma, fortalecendo-a e alimentando-a.
Que milagres! Quem ousaria supor?”. (EK 1145)
Sexta-feira da Paixão: o Ato Supremo do Amor
A Narrativa da Paixão, o julgamento, a crucificação e a morte de Jesus, é feita pelos quatro Evangelistas. Embora relatem os mesmos eventos centrais, cada um destaca aspectos diferentes.
São Mateus (cap. 27): Foca no cumprimento das profecias, na angústia de Judas, no julgamento perante Pilatos e nos fenômenos cósmicos (terremoto, véu do templo rasgado) que acompanharam a morte de Jesus.
São Marcos (cap. 15): Apresenta uma narrativa rápida e direta, focando no sofrimento físico de Jesus e no momento em que ele expira, destacando a exclamação do centurião romano: “Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus”.
São Lucas (cap 23): Enfatiza a compaixão e a humanidade de Jesus, relatando o diálogo com as mulheres de Jerusalém, o perdão aos seus algozes e a conversa com o “bom ladrão” na cruz.
São João (caps. 18-19): Oferece um relato mais teológico, destacando Jesus como o Rei que domina os acontecimentos. Foca na presença de Nossa Senhora e do “discípulo amado” aos pés da cruz. Depois São João mostra a declaração final: “Tudo está consumado!”. A obra da redenção foi realizada. Ele obedeceu até o fim, entregando-se em total fidelidade ao Pai e em total doação aos irmãos.
Neste dia Santo, somos convidados a meditar profundamente, sobre as últimas frases proferidas por Jesus na Cruz:
“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34)
Este gesto de perdão extremo torna-se para todos nós um modelo de amor incondicional, como nos exorta o apóstolo Paulo: “Sede misericordiosos como também vosso Pai é misericordioso”. (Lc 6,36)
“Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43)
A nossa esperança na feliz “Vida Eterna” não é em vão já que a promessa do paraíso manifesta a força salvadora do arrependimento sincero e da fé, mesmo no último instante.
“Mulher, eis aí o teu filho… Eis aí tua mãe” (Jo 19,26-27)
O Dom de sua Mãe a João e por ele a todos nós, é a garantia de que não estamos sozinhos. A bondade e misericórdia de Jesus, criaram para nós uma Mãe, que é a personificação da bondade e do amor infinitos de Cristo. Frei Faccenda, reconhecendo e agradecendo o amor infinito de Deus, declara: “João e Maria se olham: um ato de amor passa do coração de João ao Coração de Maria, e um ato de amor passa do Coração de Maria ao Coração de Jesus, e parece que lhe diga: ‘Morre tranquilo, meu filho. Eu serei a mamãe dos teus filhos. Não os deixarei órfãos…’”. (cf. Luigi Faccenda – Sulle strade con Maria, pg. 82-84)
“Maria, com fortaleza permanece aos pés da Cruz de Jesus. Maria é a Mãe de todos os doentes e sofredores. É a Mãe do Crucificado Ressuscitado: permanece ao lado das nossas cruzes e acompanha-nos no caminho rumo à ressurreição e à vida plena… Quem está aos pés da Cruz com Maria, aprende a amar como Jesus”. (XXII Jornada Mundial do Doente,11.02.2014)
“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27,46; Mc 15,34)
Esta frase, também é encontrada no Salmo 22, apesar de expressar o drama do sofrimento extremo, manifesta também a oração perseverante dequem confia mesmo nas trevas. Jesus experimenta a dor do abandono, identificando-se com os que sofrem e assumindo até as profundezas da dor humana.
Frei Kolbe dirá: “O vértice do amor é o estado no qual ‘se encontra Jesus sobre a cruz quando disse: ‘Meu Deus, meu Deus porque me abandonaste?’ (Salmo 21, 2; Mt 27, 46; Mc 15,34). Sem sacrifício não existe amor”. (EK 504)
“Tenho sede” (Jo 19,28)
Esta palavra revela não apenas a dimensão física do sofrimento de Cristo, mas também é interpretada espiritualmente como sede de almas, sede de amor, sede da salvação da humanidade. É a sede de quem deu tudo e ainda anseia pela nossa resposta.
A esse respeito, Frei Faccenda confirma: “Depois da entrega da humanidade a Maria feita na cruz, Jesus grita: “Tenho sede!” (Jo 19, 28). Maria faz sua esta sede do seu Filho, que era sede de almas, e a comunica incessantemente a todos os seus filhos, a partir de João aos outros apóstolos, e a todos nós. (Luigi Faccenda – Era Mariana)
Esta “sede de almas”, portanto, deve ser a sede de cada um de nós que nos consagramos à Imaculada e viver, com todas as forças, a dimensão missionária que essa consagração importa.
“Tudo está consumado” (Jo 19,30)
O amor de Cristo atingiu o cume. Havia dito um dia: “Ninguém tem maior amor do que este: dar a avida pelos próprios amigos” (Jo 15,13). E João escreverá: “Deus amou tanto o mundo a ponto de dar seu Filho unigênito”. (cf. 3,16)
A vida de um homem termina. Nada fica senão o amor. Jesus morre fora dos muros da cidade. Nós podemos fazer uma analogia com o que aconteceu com Frei Kolbe:
“Kolbe morre exilado, fora do convento. Não na paz de um claustro franciscano, mas no horror desumano de um campo de concentração. As dificuldades, as incompreensões, as provas mais duras não o condicionaram na sua oferta. Inflamaram-no cada vez mais no amor de Deus e do próximo, convicto que ‘a cruz é escola de amor’”. (Missionária Angela Esposito – Quando fogo do amor se acende)
“Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46)
Esta afirmação é um ato de confiança absoluta. Com ela, Jesus entrega sua vida ao Pai, encerrando sua missão terrena com a entrega serena de quem ama até o fim e confia plenamente na vontade divina.
São Maximilianonos convida a não perder a paz, viver a alegria mesmo nas quedas. Em caso de quedas nunca se entristecer, porque este é um orgulho asqueroso; ao contrário, levantar-se imediatamente com grande amor e alegria de espírito e seguir adiante. Reparar a queda com um ato de amor perfeito. (cf. EK 34)
Sábado Santo: o Grande Silêncio sobre a Terra
O Sábado Santo (ou Sábado de Aleluia) é um dia de silêncio profundo, luto e espera, é o período em que o corpo de Jesus permaneceu no sepulcro.
Diferente dos outros dias da Semana Santa, não há leitura de Evangelho durante o dia, pois a Igreja não celebra a Missa nem a Eucaristia. O altar permanece despojado e o tabernáculo vazio.
A Vigília Pascal
A celebração só acontece à noite, na Vigília Pascal, considerada a “mãe de todas as vigílias”. Ela é composta por quatro partes muito significativas:
– Liturgia da Luz: Inicia-se com a bênção do fogo e o acendimento do Círio Pascal, que simboliza Cristo ressuscitado, a Luz do Mundo.
– Liturgia da Palavra: São lidas sete leituras do Antigo Testamento (que narram a história da salvação desde a Criação) e duas do Novo Testamento. O ponto alto é o canto solene do Glória e do Aleluia, que não eram entoados desde o início da Quaresma.
– Liturgia Batismal: É o momento em que a água batismal é abençoada e novos fiéis são batizados, ou a assembleia renova suas promessas batismais.
– Liturgia Eucarística: A primeira celebração da Eucaristia da Ressurreição.
Diferente da Sexta-feira da Paixão (“hora de Cristo”), o sábado é o dia da Mãe, focando na sua confiança inabalável.
– Liturgia da Esperança: Maria é considerada a única chama de fé acesa durante a treva do Sábado Santo, unindo a dor da perda à certeza da ressurreição.
Sob a Cruz, Maria pronuncia mais uma vez – no silêncio de seu coração – seu sim incondicional. A dor da Mãe de Jesus não é desesperada, mas ainda assim é insuportável, porque é a mais pura dor de uma mãe. Transcorre o sábado, aquele dia interminável, à espera de que tudo aconteça.
Esta força de fé, esta esperança segura, certamente não poderia aliviar sua dor. Ela teve que testemunhar a agonia de seu Filho e sua morte. Ela o segurou pela última vez em seus braços antes de deixá-lo, ao ser levado para a sepultura. Ela teve que aceitar o desapego e o vazio que se abateu sobre ela. É impossível compreender quantos pensamentos “ela guardava em seu coração” (Lc 2, 51).
Páscoa do Senhor
O Domingo de Páscoa é a festa máxima da Igreja Católica, celebrando a vitória da vida sobre a morte. É o encerramento do Tríduo Pascal e o início de um tempo de alegria que dura 50 dias.
São Maximiliano, na última revista que publicou em 1941, escreveu sobre “A Verdade”: “… Se é verdade que Jesus Cristo ressuscitou, é verdade aquilo que Ele ensinou e que Ele é Deus encarnado; mas se Ele não tivesse ressuscitado, todas as confissões cristãs não teriam razão de existir”. (EK 1246)
Os Evangelhos da Ressurreição
A liturgia varia conforme o ano (A, B ou C), mas os relatos focam na descoberta do túmulo vazio:
A Visita das Mulheres: Maria Madalena é a figura central. Ao chegar ao sepulcro e não encontrar o corpo, ela corre para avisar os apóstolos. João 20, 1-9 é o evangelho mais lido na missa da manhã.
O “Ver e Crer”: Pedro e o “discípulo amado” correm ao túmulo. O evangelho destaca que eles viram as faixas de linho no chão e o sudário dobrado, o que historicamente indica que o corpo não foi roubado às pressas.
Emaús: Nas missas da tarde, é comum ler sobre os discípulos de Emaús (Lucas 24, 13-35), onde Jesus é reconhecido ao partir o pão.
O Encontro na Ressurreição
Embora os Evangelhos não registrem uma aparição de Jesus à sua Mãe no domingo (focando em Madalena) uma fortíssima tradição – defendida por santos como João Paulo II – sustenta que Jesus apareceu primeiro à sua Mãe, em um encontro privado de alegria indizível, recompensando sua fidelidade absoluta no Sábado Santo.
Frei Kolbe, quando retorna definitivamente à Polonia em 1938, escreve:
“O Senhor ressuscitou: repetem neste dia milhares de vozes. Também nós ressuscitaremos, e não somente depois da morte, pois cada ano a santa Igreja convida os fiéis a fazer isso, recomendando-lhes a confissão pascal. Com mais motivo temos de ressuscitar nós, consagrados à Imaculada… Quanto mais alguém se aproxima dela, mais abundantemente se enriquece das graças do conhecimento e do amor, de um amor generoso a Deus, que por amor a nós subiu à cruz”. (EK 1230)
Termino, desejando uma Feliz Páscoa, com a voz de Frei Luigi Faccenda que, com certeza, ressuscitou cedo ao céu junto a Jesus e a Virgem Santíssima, e intercede por cada um de nós.
“Portanto vos repito: Feliz Páscoa! Cristo ressuscitou e nós com Ele!”. (Luigi Faccenda – Só o amor Constrói)
Matilde Luvisotto
Voluntária da Imaculada-Padre Kolbe
Cristo nas calçadas: um chamado à fraternidade

Caminhar pelas ruas da cidade de São Paulo, e imagino que também de outras grandes cidades brasileiras, quase sempre é sinônimo de ter acesso a emoções nem sempre positivas. Às vezes, sentimos medo por conta da insegurança, da violência física e do trânsito caótico. Mas uma das emoções mais frequentes tem sido o constrangimento diante de tantas pessoas que não têm onde morar e ocupam calçadas, improvisando, com tecidos, barracas ou um simples papelão, algum microespaço para chamar de abrigo.
Em São Paulo, logo cedo, os espaços para passar a noite formam filas já nas primeiras horas da manhã. É preciso garantir algum lugar para dormir e, literalmente, não morrer nos dias mais frios. Mas esses espaços não atendem de forma plena essa população. Faltam vagas, faltam bons modelos.
Não importa o que as instituições digam, não importa o que nossa família e conhecidos digam, não importa o que os vizinhos ou as autoridades digam. O constrangimento que sentimos é algo que vem do fundo do coração. A alma do cristão pede: “olhe, veja, sinta”. O que podemos fazer para evitar que nossa sociedade deixe tantos irmãos pelo caminho? O que eu posso fazer para que todos tenham uma chance de viver com mais dignidade?
Os motivos para estarem ali são os mais variados: maus-tratos familiares, envolvimento com drogas, depressão, pobreza extrema etc. Mas, independentemente desses motivos, cabe a todos nós “manter uma porta aberta”. Ninguém deveria enxergar como única alternativa lançar-se à insegurança e ao frio das ruas. Logo mais, o inverno vai chegar, e não podemos naturalizar as pessoas em situação de rua como parte da “paisagem” deprimente de uma grande cidade. Estamos diante de um problema gigantesco, e de muitas camadas.
Será que aquela criancinha que hoje é explorada no farol terá um teto para morar amanhã? Será que aquela família em situação de vulnerabilidade conseguirá pagar um aluguel de mais de mil reais na cidade? Será que aquele idoso que perdeu todos os entes da família em uma tragédia encontrará forças para sair da depressão? Será que uma pessoa que passou pelo sistema carcerário encontrará meios para se reintegrar à sociedade? Será que aquela mulher com grave enfermidade mental encontrará alguma saída que não seja a rua? Será que o dependente de entorpecentes conseguirá se livrar do vício sem ajuda, até mesmo para buscar ajuda? São muitos “serás”… e o problema segue crescendo. Há projetos, há tentativas, mas diante dos números, têm se mostrado ineficientes.
Ao final de 2025, o Brasil registrou 365.822 pessoas em situação de rua, um aumento em relação às 327.925 contabilizadas em dezembro de 2024. A maioria dessa população (61%, ou mais de 222 mil pessoas) encontra-se na Região Sudeste. O estado de São Paulo lidera, com mais de 150 mil pessoas nessa condição, seguido pelo Rio de Janeiro e por Minas Gerais.
Além disso, é preciso lembrar que uma grande parcela da população não possui renda suficiente para acessar o mercado imobiliário privado e obter financiamentos, dependendo exclusivamente de políticas públicas que hoje são consideradas insuficientes. Estima-se que faltem cerca de 6 milhões de moradias no país. Além da falta absoluta de casas, existe um problema gigantesco de inadequação: cerca de 26 milhões de residências são consideradas inapropriadas, apresentando problemas como falta de saneamento básico, superlotação ou estruturas precárias.
Promover o direito à moradia digna, não como privilégio ou mérito, mas como um direito fundamental garantido a toda a população, em unidade com outros bens e serviços essenciais, é mais do que necessário nos dias atuais. A falta de habitação afeta a dignidade das pessoas e o desenvolvimento das famílias.
Certa vez, li um livro que propunha o seguinte exercício: imagine um casal debatendo uma questão séria da família em um apartamento de alto padrão. Agora imagine o mesmo casal debatendo a mesma questão em um barraco de madeira, onde foi colocado um madeirite por cima de um córrego de esgoto. Qualquer discussão se agrava em condições assim. Quando as necessidades humanas básicas não são atendidas, a cólera ganha mais combustível para entrar em cena.
A Campanha da Fraternidade de 2026 (CF 2026), promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), nos convida a olhar para a questão da habitação sob a perspectiva cristã e social. O tema da campanha é “Fraternidade e Moradia”, e o lema bíblico é “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). A campanha recorda que Jesus assumiu a realidade humana e também necessitou de um lar, destacando a importância da moradia para o crescimento humano e para as relações familiares.
Ela reflete sobre o mistério da encarnação de Deus, que “armou sua tenda” entre a humanidade. A iluminação bíblica convida os cristãos a reconhecerem a dignidade humana e a verem na falta de moradia uma violação do plano de Deus.
Como ação concreta, precisamos nos empenhar em promover e defender políticas públicas eficazes e a aprovação de leis que garantam moradia popular. Também é necessário que nosso trabalho pastoral tenha em mente essas necessidades humanas. Além disso, o tema precisa servir de critério para o discernimento do voto em anos eleitorais. Qual a opinião do meu candidato sobre o tema?
O cartaz da campanha apresenta a escultura “Cristo sem-teto”, do artista Timothy Schmalz, que retrata uma figura envolta em um cobertor, deitada em um banco de praça, identificada como Jesus apenas pelas chagas nos pés.
Na verdade, sabemos por que ficamos tão constrangidos ao ver pessoas nessas situações de calçada: é porque sabemos que ali está Jesus disfarçado.
⁴⁴ Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos?
⁴⁵ Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim.
Mateus 25,35-45
Thais Veiga
Jornalista
Saiba mais: https://campanhas.cnbb.org.br/campanha/campanha-da-fraternidade-2026/
Uma nova maternidade

A atitude de escuta de Maria e a sua vida de oração fazem com que o Espírito possa agir nela e torná-la mãe. A maternidade é para Maria tanto a vocação específica que Deus lhe concede, quanto o fruto da plenitude do Espírito dentro dela. Por isso, Santo Agostinho pode dizer que Maria concebeu o Filho antes na fé e depois em seu seio. Portanto, Maria é mãe mais porque acreditou do que porque gerou. É mãe porque respondeu “sim” ao Senhor.
Isso me faz compreender que a verdadeira maternidade, no Reino dos Céus, é a maternidade nos valores do espírito, expressa na caminhada da fé. O “sejam fecundos e multipliquem-se, encham a terra” (Gn 1,28) não é somente um mandamento-biolóligo, mas indica o crescimento de uma filiação através da maternidade espiritual que deriva do nosso amor, da nossa fé, da nossa alma.
Se ficarmos na escuta, se dissermos “sim” à vontade de Deus a nosso respeito, também nós nos tornaremos “mãe” como Maria, como a Igreja. Não ficaremos fechados em nosso pequeno “ovo”, entre quatro paredes, com um filho ou dois, ou na nossa comunidade, mas o nosso coração será “mãe dos viventes” e abraçará a todos, dando a vida também para aqueles que provavelmente nunca conheceremos. Um dia, porém, os conheceremos, quando, tendo, ficado na escuta, em oração e tendo respondido com o nosso “sim”, obteremos a vida eterna e, tendo chegado lá, ouviremos alguém nos cumprimentar: “Eu fui salvo porque você ocupou o seu lugar na história da salvação e foi mãe para mim…”.
Maria expressa essa realidade materna através também de uma atitude de oferta. Quando apresentou Jesus no templo, ofereceu a si mesma juntamente com o Filho, e Simeão lhe disse: “Uma espada há de atravessar-lhe a alma” (Lc 2,35). O que tudo isso nos diz?
Cada um de nós tem a sua própria história. E basta se aproximar de alguém para perceber todo o seu mundo de sofrimento e de dor. Quantas vezes somos tentados a nos perguntar: mas por quê? Isso nos perguntamos diante do mal, diante das dores morais e das humilhações, diante dos sofrimentos físicos, das tentações, das trevas do espírito, do “distanciamento” de Deus.
A nossa inteligência não é capaz de fornecer respostas. Não podemos resolver o problema da dor com raciocínios, com a lógica humana. Devemos perguntar isso a Deus, refugiando-nos em sua vontade. E a resposta não tardará a chegar. Ele se fez “obediente até a morte e morte de cruz” (Fl 2,8), a fim de que pudéssemos ter a vida e a tivéssemos com abundância (cf. Jo 10,10).
Contudo, se abrirmos o Evangelho, veremos também uma mulher, livre para fazer ou não fazer a vontade de Deus, livre para aceitar ou não aceitar. Veremos essa mulher abraçar a dor e, então, também nós acharemos a resposta.
Maria, ao apresentar Jesus no Templo (cf. Lc 2,22-35), ouve Simeão lhe dizer aquelas palavras. Palavras misteriosas, inspiradas. Maria não se revolta. Medita em seu coração. Há nela a oferta do Filho que não se limita a um gesto ritual, mas é um verdadeiro gesto de oblação, através do qual oferece a si mesma juntamente com o Filho ao Pai eterno, em prol da salvação do mundo. Pois havia compreendido que para salvar o mundo era necessário sofrer, era necessário derramar o sangue, e o sangue do seu Filho era o único capaz de unir o homem a Deus.
Maria oferece o Filho
Depois vemos Maria fugindo para o Egito (cf. Mt 2,13-15). Ela também deve ter se perguntado o “porquê”, mas guardava tudo no seu coração. Vamos vê-la procurando o Filho que havia perdido, numa aparente distração que a torna mais próxima da nossa caminhada (cf. Lc 2,41-50). “Por que você fez isso conosco?”. O que me agrada em Maria é essa ausência de inúteis conversas, de inúteis queixas.
E me agrada ver Maria que acompanha o Filho que fala às multidões e não pára nem mesmo para receber a sua mãe (cf. Mc. 3,31-35). E Ela não se espanta, não pretende nada, faz a vontade de Deus e ouve aquelas palavras do Filho que convida a olhar para a perfeição do Pai.
Agrada-me ver Maria que não fica se lamentando ao seguir o Filho na paixão, mas está aí, aos pés da cruz (cf. Jo 19,25), onde parece estar dizendo: “Completa a tua obra. Estou junto de ti, do mesmo modo como eu estive sempre contigo”. Maria sempre esteve com Jesus não tanto porque lhe deu a vida (não é difícil ser mãe de sangue), quanto porque cooperou com Ele, sofreu com Ele e caminhou dia após dia a fim de crescer na virtude: Depois pega o seu corpo e o deposita no sepulcro, porque sabe que somente através da morte Ele poderá sair vitorioso e triunfante, refazendo o fio do amor quebrado.
E Ela, após essa morte, saberá se tornar a mãe dos viventes, mãe da Igreja, porque compreendeu que toda maternidade é um ato de redenção e toda redenção se dá através do derramamento de sangue.
Então, entendemos bem por que Maria, ao querer nos tornar apóstolos, nos convida ao sacrifício, à penitência (pensemos em Lourdes, Fátima, no Padre Kolbe). Por isso, não nos resta outra coisa senão pedir a Maria que nos obtenha a força para realizar a vontade de Deus, custe o que custar; a força para dizer: “Se é possível, afaste de mim este cálice. Contudo, não seja feito como eu quero, e sim como tu queres” (Mt 26,39). Assim, cada um de nós, completará em si aquilo que falta aos sofrimentos de Cristo, como afirma São Paulo (cf. Cl 1,24).
Frei Luigi Faccenda
Santo Natal 2025

Deus tece sua carne no ventre de sua criatura, Maria.
Humildade e grandeza de um amor para nós incompreensível, de um mistério que nos ultrapassa, deixando-nos em um silêncio impregnado de admiração…
Desejos sinceros de Feliz Natal!
Elisabetta Corradini
(Diretora geral)
com as Missionárias e os Voluntários da Imaculada Padre Kolbe
Natal: meu caminho à procura do silêncio

Quando eu era criança, os feriados religiosos tinham aquele silêncio misterioso. Em minha inocência, eu acreditava que todas as pessoas tinham ficado em casa para refletir sobre a data em questão. Na Sexta-Feira Santa, quase não se via nenhum comércio aberto. Em casa, a regra era clara: falar mais baixo, não comer carne, não ostentar nas vestimentas — ainda que algumas coisas fugissem à regra. A bacalhoada, por exemplo, era uma tradição em minha família e fazia parte daquele dia de refletir e pensar “em tudo que Jesus havia feito por nós”.
Quando criança, meu Advento era vivido a partir do início das férias. A preocupação com as notas diminuía e agora eu tinha um mês inteirinho para encontrar amigos, brincar do que quisesse, ler os livros que me dessem na telha e, melhor ainda, esperar pelo Natal, com suas músicas, cores, luzes e, claro, muitas visitas de familiares, que me traziam presentes ou dinheiro. Na época, os dez reais recebidos discretamente pelas mãos de minha avó eram verdadeiras fortunas. Mas o que mais me lembro era daquele silêncio, daquela pausa que todo mundo se dava ao direito. Quase todo mundo se permitia parar, silenciar o coração, respirar mais aliviado, já pensando em descansar para o próximo ano.
Durante o mês, apesar das correrias para compra de presentes, visitas e confraternizações, parecia que a mente ia descansando das obrigações de trabalho e estudo. Era uma correria gostosa, talvez um pouco consumista, mas sem tanta pressão — ao menos na minha cabeça de criança.
Hoje, já como adulta, ando à procura de silêncio. Não apenas o silêncio de desligar televisões, celulares, poluição sonora, mas aquele silêncio interior, aquela postura de quem só contempla a vida. Parece tão simples admirar o céu, o brilho dos olhos das pessoas que amamos, a natureza, olhar o que realmente importa, mas são raros os dias em que nos permitimos simplesmente apreciar a lua e as estrelas ou sentir o sol aquecer nossa pele.
Algo tem me ajudado muito: contemplar o presépio. Aquele silêncio profundo e contemplativo representado no estábulo em Belém é muito difícil de ignorar e, pouco a pouco, vai mudando algo dentro da gente.
A oração também. Em um mundo com tantas vozes, quando paro para ouvir a Deus, as “vozes da minha cabeça” vão ficando cada vez mais baixinhas, e esse bendito silêncio aos poucos vem se aproximando.
Um dia desses, esqueci o celular em casa. Depois de 20 minutos de pânico achando que o havia perdido no metrô, percebi que foi uma das melhores coisas da minha semana. Contemplei um jardim, ouvi atentamente um pianista que estava tocando no centro cultural onde almoço, observei atentamente a chuva caindo e fiz a minha refeição prestando total atenção na comida. No fim do dia, me senti bem mais livre. Quem convive com um bebê recém-nascido sabe bem o quanto o silêncio é importante para ele. Faz parte da sua rotina entre as mamadas e trocas de fraldas: aquele soninho restaurador, cercado de silêncio. Neste Advento, quero deixar que esse silêncio também faça parte da minha rotina. Assim, no Natal, quero estar mais preparada para contemplar Jesus recém-nascido e vivenciar essa notícia tão maravilhosa, tão profunda e tão restauradora. Nasceu o Menino Deus!
Thais Veiga
Jornalista
Preparar-se para a Festa!

Os meios mais importantes para viver a novena em preparação à festa da Imaculada são: a oração, o trabalho e o sacrifício.
A oração, para que a Imaculada se torne, o mais rápido possível, a Rainha de todos os corações; a fim de que outros a amem como nós a amamos, ou mais ainda, através dela cheguem a conhecer e a amar Jesus de modo mais perfeito, Ele que, pelo amor que nutre para conosco, morreu na cruz.
O trabalho, buscando um número cada vez maior de novos membros para a M.I., pois ainda são muitos aqueles que não fazem parte dela. Empenhemo-nos igualmente em difundir ainda mais o RycerzNiepokalanej(a revista que Padre Kolbe editava em sua época, como “O Mílite” de hoje), que aprofunda o espírito da M.I. e mostra como se pode agir no momento atual em conformidade com esse espírito.
E o sacrifício, façamos o sacrifício de nós mesmos, oferecendo à Imaculada as nossas humilhações, os sofrimentos, os fracassos. Façamos o sacrifício daquilo que nos pertence, colocando à disposição um pouco dos nossos bens.
Todos nós que vivemos em Niepokalanów, colocamos nas mãos da Imaculada a completa oferta de tudo aquilo que possuímos, ou melhor, até mesmo a oferta da nossa própria pessoa, consagrando-nos totalmente à sua causa.
Qualquer meio, qualquer última invenção no campo das máquinas ou dos sistemas de trabalho sejam antes de tudo colocados a serviço da obra de santificação das almas através da Imaculada. Com efeito, limitando ao máximo as necessidades pessoais, levando uma vida na mais extrema pobreza, utilizaremos meios moderníssimos. Vestidos com roupas remendadas, com sapatos concertados nos pés, a bordo de um avião de último tipo, se isso for necessário para salvar e santificar o maior número de almas: esse continua sendo o nosso ideal.
Assim, portanto, com a ajuda da Imaculada, nós todos, seus milites, renovaremos a nossa total doação a Ela e nos empenharemos com verdadeira solicitude, durante a nova em preparação à sua festa, para dar a máxima contribuição possível na conquista do mundo inteiro para Ela.
Pediremos frequentemente a Ela para que nos ilumine a respeito daquilo que devemos realizar e como devemos fazer; além disso, nos dirigiremos a Ela para implorar a energia necessária a fim de realizar, para Ela, inclusive as ações mais difíceis e heroicas.
Vamos despertar em nós, todos, sem exceção, uma sábia solicitude para a salvação e a santificação do nosso próximo, próximo ou distante, até mesmo aquele que é inteiramente estranho à nossa nacionalidade e raça, e façamos tudo isso através da Imaculada. De fato, todos nós somos irmãos e irmãs, pois temos uma Mãe celeste comum, a Imaculada, um Pai comum que está no céu e um Irmão maior comum, Jesus, Homem-Deus.
São Maximiliano Kolbe
(Revista “RycerzNiepokalanej” Dezembro de 1937)
A Virgem do Globo

Sempre acreditei na medalha milagrosa com toda a força da minha fé. A sua mensagem, uma das maiores e mais extraordinárias destes últimos séculos, confirmou que esta é a hora de Maria, a qual preanuncia os tempos nos quais, segundo uma expressão cara a Catarina Labouré, “as almas respirarão Maria como os corpos respiram o ar” (São Luis M. Grignion de Montfort,
Tratado da verdadeira devoção a Maria, n. 217). Eis porque me detenho com ardor na segunda aparição, a mais densa em significado, na qual a Virgem revela a missão que confia a Catarina.
“No dia 27 de novembro de 1830, que era sábado anterior ao primeiro domingo do Advento, às cinco e meia da tarde, estava eu fazendo a meditação em profundo silêncio quando me pareceu ouvir do lado direito da capela um rumor, como o roçar de uma roupa de seda. Ao dirigir o olhar para aquele lado, vi a Santíssima Virgem na altura do quadro de São José.
A sua estatura era mediana, e tal era a sua beleza que me é impossível descrevê-la. Estava em pé, a sua roupa era de seda e de cor branca-aurora, feita, como se diz, ‘à lavierge’, isto é, bem fechada e com as mangas simples. Da cabeça descia um véu branco até os pés. O rosto estava suficientemente descoberto, os pés se apoiavam sobre um globo, ou pelo menos eu vi somente a metade. Suas mãos, erguida à altura da cintura, seguravam de modo natural um outro globo menor, que representava o universo. Ela tinha os olhos voltados para o céu, e o seu rosto se tornou resplandecente enquanto apresentava o globo a Nosso Senhor. De repente, seus dedos se cobriram de anéis, ornados de pedras preciosas, um mais bela do que a outra, algumas maiores, outras menores, e que emitiam raios luminosos.
Enquanto eu estava contemplando-a, a Santíssima Virgem abaixou os olhos na minha direção, e uma voz me disse: ‘Este globo representa o mundo inteiro, especialmente a França e cada uma das pessoas…’. Não sei aqui repetir aquilo que ouvi e que vi, a beleza e o esplendor dos raios tão fulgurantes!… e a Virgem acrescentou: ‘São os símbolos das graças que eu espalho sobre as pessoas que as pedem’, fazendo-me compreender o quanto é doce invocar a Santíssima Virgem e o quanto Ela é generosa com as pessoas que a invocam; e quantas graças Ela concede às pessoas que a procuram e que alegria Ela sentem concedê-las.
Naquele momento eu era e não era… Estava exultante. E então começou a se formarão redor da Santíssima Virgem um quadro um tanto oval, sobre o qual, no alto, numa espécie de semicírculo, da mão direita para a esquerda de Maria se liam estas palavras, escritas com letras de ouro: ‘Ó Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós’. Então ouvi uma voz que me disse: ‘Mande cunhar uma medalha conforme este modelo; todas as pessoas que a carregarem, receberão grandes graças; leve-a principalmente no pescoço. As graças serão abundantes para as pessoas que a carregarem com confiança’.
No mesmo instante pareceu-me que o quadro virou e eu vi o reverso da medalha. Havia o monograma de Maria, isto é, a letra ‘M’ com uma cruz em cima e, como base dessa cruz, uma linha grossa, ou seja, a letra ‘I’, monograma de Jesus. Sob os dois monogramas havia os Sagrados corações de Jesus e de Maria, o primeiro rodeado por uma coroa de espinhos e o segundo traspassado por uma espada.”
Interrogada mais tarde se além do globo, ou melhor, além de metade do globo, ela tinha visto outra coisa sob os pés da Virgem. Catarina Labouré respondeu que havia visto uma serpente de cor esverdeada com manchas amarelas quando às doze estrelas que circundam o reverso da medalha, “é moralmente certo que essa particularidade foi indicada à viva voz pela Santa, desde a época da aparição”.
Nos manuscritos da vidente encontra-se também esta particularidade, que é muito importante. Entre as pedras preciosas havia algumas que não emitiam raios. Enquanto se espantava, ouviu a voz de Maria que dizia: “As pedras preciosas das quais não saem raios são símbolo das graças que não me foram pedidas por esquecimento”.
Em 1832, dois anos após as aparições, o pedido de Maria foi atendido e a Medalha foi cunhada. Uma das primeiras pessoas, a recebê-la foi a Irmã Catarina, a qual, logo que a teve entre as mãos, a beijou várias vezes com afeto e disse: “Agora é preciso difundi-la”.
A Medalha, num certo sentido, se propagou por si. As graças e os milagres, obtidos seja em benefício das almas, seja em benefício dos corpos, foram tantos e tão evidentes que, em pouco tempo, a Medalha foi chamada de “milagrosa”.
O PRIMEIRO QUADRO
A medalha Milagrosa, além de um pequeno livro de fé, pode ser definida como um pequeno tratado de mariologia. O primeiro quadro que se apresenta na medalha é a visão maravilhosa, sobre um globo e com o pé imaculado, esmaga uma serpente. O seu rosto maternalmente sorridente fala de todo o seu amor pelos homens sobre o qual ela faz descer de suas mãos os raios luminosos, símbolo das suas graças. Fecha o quadro a sublime invocação: “Ó Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós”.
Podemos dizer que, exatamente por causa dessa visão, a medalha contribuiu notavelmente a fim de preparar os ânimos para a definição do dogma da Imaculada Conceição, vinte e quatro anos mais tarde. De fato, no dia 8 de dezembro de 1854, através da Carta apostólica Innefabilis Deus, o Papa Pio IX proclamou o dogma da Imaculada Conceição.
Contudo, além dessa finalidade imediata, que já se realizou, quantas coisas ainda diz a esplêndida visão da Imaculada para o olhar atento do cristão que a contempla! A visão da “toda pura”, que esmaga a cabeça da serpente infernal, recorda ao homem a triste história da humanidade pecadora.
Todos os homens passam da tenaz do pecado original, da qual são libertados somente pela graça do batismo. Somente Maria foi isenta dela. E esse singular privilégio, mais do que ofender a universalidade da Redenção humana, realizada por Cristo, exalta o poder do divino Redentor, que com seus méritos preservou Maria, sua mãe, de incorrer na herança comum: Maria foi redimida com uma redenção preventiva, que a tornou imune de contrair o pecado original desde o primeiro momento da sua concepção.
Que alegria para a humanidade essa vitória de Maria, que marca a primeira de todas as vitórias por Ela ganha contra o inferno e contra suas insídias! A Igreja canta: “Gaude Maria Virgo; cunctashaereses sola interemisti in universo mundo”; “Alegrai-vos, ó Virgem Maria! Por ti foram vencidas todas as heresias do mundo”.
A vitória será infalível para quem mergulhar com confiança na luz das suas graças.
O SEGUNDO QUADRO
Vamos virar a Medalha e ler o seu reverso. Tudo retorna, mas numa luz mais panorâmica e mais ampla: um “M” com uma cruz em cima representa Maria com Cristo crucificado em relação à nossa Redenção. Esse mistério nos leva necessariamente ao mistério da Encarnação do Verbo e também ao próprio mistério de Deus Uno e Trino, fonte de todo ser e de toda vida.
O primeiro homem, criado inocente por Deus, prevaricou comendo o fruto proibido. O seu pecado repercutiu negativamente em toda a sua descendência, que desde o momento de sua concepção está sujeita à mancha original. Deus misericordioso, porém, não deixou o homem na infelicidade de sua própria sorte. Deu-lhe uma tábua de salvação: prometeu-lhe um Salvador, no qual encontraria reconciliação e vida.
Na plenitude dos tempos, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Verbo de Deus, toma carne humana no seio de Maria e, após uma vida terrena de trinta e três anos, vividos em meio aos homens, sobe o Calvário para ser imolado ao Pai pela Redenção do mundo.
Na cruz se realiza a obra da nossa salvação e a nossa pacificação com Deu: “Pois nele aprouve a Deus fazer habitar toda a plenitude e reconciliar por ele e para ele todos os seres, os da terra e os dos céus, realizando a paz pelo seu sangue da sua cruz” (Cl 1,19-20).
O lugar da Virgem nesse plano divino de restauração do mundo é capital importância. Ela está ao lado do Cristo Redentor, e não podemos concebê-la senão ao lado dele, porque a sua parte na nossa salvação vem imediatamente após a de Jesus. Através dela, de fato, Jesus é oferecido ao mundo e, através dela, o mundo retornará a Jesus: eis a missão de Maria nos projetos de Deus, que quis associá-la a toda a obra do divino Redentor.
Frei Luigi Faccenda
Espaço aberto para Ele

A vida interior se fundamenta na reta intenção, no recolhimento interior, na firmeza de propósito, mas se nutre da oração, da meditação, e de uma filial relação com Maria.
Meditação
Podemos meditar caminhando, sentados, no quarto, na igreja, ou contemplando a natureza… O importante é dedicarmos todos os dias um pouco de tempo, uma hora, meia hora, ao menos quinze minutos, a esse encontro pessoal com Deus.
Somente diante dele, a fim de que a sua palavra penetre em nosso coração e em nosso espírito. Palavra que é antes de tudo a Sagrada Escritura, mas que pode ser também um documento da Igreja, a vida e o exemplo de um santo, um livro que fale de Maria, etc.
Meditando a palavra de Deus conseguiremos entender a vocação que Deus nos deu.
Muitas vezes digo isso com pesar, vemos jovens e não tão jovens insatisfeitos, desiludidos, porque não buscaram o sentido da vida, não procuraram entender o lugar para o qual Deus os chamava e se viram fora do caminho.
Meditando a Palavra, teremos a certeza que Ele, “venceu o mundo”
(Jo 16,33).
E seremos capazes de oferecer tudo, como fez Maria. Por que teremos entendido que a cruz, onde quer que toque, dá a vida.
Por isso, nos momentos de dor saberemos dizer: “Creio e crendo sigo a ti, seguindo-te, te amo, e amando-te te ofereço tudo”.
A nossa alma será purificada e ganhará força nova… uma força capaz de renovar o mundo.
Frei Luigi Faccenda
Cantores da Misericórdia

Teresa de Lisieux e Maximiliano Kolbe, duas pessoas universais e amadas, geniais e complexas… diferentes: ao menos na aparência.
Em dimensões humanamente microscópicas, mas de modo incrivelmente profundo e intenso, o espírito missionário de Teresa enfrenta todas as batalhas às quais é submetida a vida dos maiores apóstolos. A raiz do seu espírito missionário pode ser encontrada exatamente na comparação evangélica da lâmpada acesa, que com agudeza Teresa aplica às relações fraternas. Simplicidade, alegria, ternura: sem esses ingredientes, que indicam o modo cristão de expressar amor, não é possível nem mesmo a missão. Antes de serem heroicos, os missionários são, de fato, autenticamente humanos.
Nos últimos meses de sua vida, Teresa mostra o seu amor fraterno com uma espontaneidade maravilhosa; preocupa-se de todas as maneiras em “serenar e alegrar” as suas irmãs, propondo-se, entre outras coisas, de manter vivo o bom humor. A irmã Maria da Trindade recorda isso ao contar o modo como Teresa foi consolá-la num dia de junho de 1997: sentara-se ao seu lado, num tronco de árvore, e deitara a cabeça da noviça em seu coração.
Viajando pela Europa, Padre Kolbe escreve aos confrades da comunidade japonesa: “Caríssimos, São Paulo, numa carta aos coríntios, também diz mais ou menos estas palavras: ‘Mesmo que vocês tivessem mil mestres em Cristo, não teriam muitos pais, pois fui eu que os gerei no Evangelho’. Po isso, também eu aplico com alegria a mim mesmo essas palavras, alegrando-me pelo fato que a Imaculada se dignou, apesar das minhas misérias, fraquezas e indignidade, infundir a sua vida em vocês através de mim, tornar-me mãe de vocês. É assim que a vida divina, a vida da Santíssima Trindade jorra do Sacratíssimo Coração de Maria, em seus pobres corações, mas muitas vezes também através de outros corações criados. Que essa vida seja o amor, nós todos o sabemos muito bem”.
Eis o testemunho de uma jovem colega de prisão de São Maximiliano: “Eu havia vivido numa casa onde o amor era a palavra-chave. Ser uma criança educada num lugar assim maravilhoso e, depois, encontrar-se de repente completamente só, com a idade de treze anos, no inferno de Auschwitz, provoca tal efeito que dificilmente alguém pode compreender. Sem esperança, não havia possibilidade de sobreviver e muitos rapazes da minha idade jogavam sobre os fios de alta tensão. Kolbe veio ao meu encontro, falou comigo enquanto vagava, procurando alguém com quem partilhar as minhas recordações. Para mim ele foi como um anjo e, como uma mãe carinhosa, me tomou entre seus braços. Enxugava sempre as minhas lágrimas. Comecei então a acreditar mais em Deus, pois desde que meus pais haviam morrido eu me perguntava continuamente: ‘Onde está Deus?’, e eu tinha perdido a fé. Kolbe, porém, a restituiu para mim! Ele sabia que eu era judeu, mas isso não tinha importância. O seu coração fazia diferença entre as pessoas: ele amava a todos e doava amor, nada mais do que amor”.
VIVER O AMOR
Esses dois santos se assemelham no amor. Um amor de tal modo enraizado em Deus que não tem medo de ambiguidade, simples e, portanto, livre de complexos. Dir-se-ia um amor parecido com o das crianças: a “infância espiritual” de Teresa, que pode ser facilmente reconhecida também em São Maximiliano Kolbe, é a síntese desse caminho árduo, mas iluminado pela misericórdia de Deus, que conduz à plena maturidade do amor. Implica uma capacidade adulta de amar, pondo em ação toda a sua humanidade e profundidade espiritual. Um caminho que, qualquer que seja o nosso estado de vida, nos interessa.
“O amor se nutre de sacrifícios. Quanto mais a alma rejeitar as satisfações naturais, tanto mais a sua ternura se faz forte e desinteressada. Estou muito feliz por ter-me sacrificado desde o começo da minha vida religiosa: agora já me alegro pelas recompensas prometidas àqueles que lutam corajosamente. Não sinto mais que seja necessário recusar a mim mesma todas as consolações do coração, pois a minha alma foi revigorada por Aquele que é o único que eu queria amar. Vejo com Alegria que, amando-o, o coração se dilata, podendo dar incomparavelmente muito mais ternura há aqueles que lhe são caros do que se estivesse concentrado num amor egoísta e infrutífero”.
Também neste caso, o padre kolbe parece fazer seu o pensamento de Santa Teresa, cujos escritos ele conhecia muito bem: “Caros filhos, lembremo-nos que o amor vive, se nutre de sacrifícios. Agradeçamos à Imaculada pela paz interior, pelo êxtase de amor, mas nunca nos esqueçamos que tudo isso, apesar de ser bom e bonito, não é de fato a essência do amor, ou melhor, o amor perfeito pode existir inclusive sem tudo isso. O ápice do amor é o estado no qual encontrou-se Jesus na cruz, quando disse: ‘Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?’. Sem sacrifício não há amor. Sem sacrifício dos sentidos, sobretudo dos olhos, o sacrifício do paladar, do ouvido e assim por diante. Mas, acima de tudo, o sacrifício da razão e da vontade na santa obediência”.
Denise Adversi
Missionária da Imaculada – Padre Kolbe
Mestres da Pequenez

Em seu explícito desejo de santidade, plenamente partilhado pela “pequena” Teresa, Padre Kolbe se esforça para captar a “essência” do amor, que ele descobre no sacrifício da vontade: a obediência. O que significa isso para nós hoje?
Olhando a experiência de Teresa, causa admiração que ela, desde menina, nunca pensou em Deus com sujeição ou temor, apesar da rigidez da educação de sua época. Talvez seja esse o primeiro e o mais importante ensinamento que recebemos dela: não ter medo de Deus. Somente assim, aliás, é possível nos libertarmos do medo de nós mesmos. Portanto, a primeira obediência é a obediência àquilo que somos e consiste em amar a nós mesmos, apesar dos nossos limites.
Padre Kolbe também está convencido de que não pode eliminar da sua vida os defeitos e, por isso, decidiu jogar tudo no amor: “Santa Teresa do Menino Jesus escreve que já havia se resignado à constatação de que sempre seria imperfeita, porque é difícil não sê-lo, dado que ainda não estamos no Paraíso”. Entretanto: “um único ato de amor perfeito faz renascer a alma, sirvamo-nos com frequência desse meio”. O amor do qual ele fala e que vive não é aquele “que provém do sentimento, mas somente da vontade, isto é, um ato de obediência religiosa realizados para a Imaculada”. A coisa mais importante é potencializar cada vez mais o nosso amor pessoal pela Imaculada e pedir frequentemente a Ela para obter um amor para com Ela, cada vez mais profundo e ardoroso. Esse é o cerne da nossa vida, da nossa existência”.
Concretamente, trata-se de realizar com fidelidade os deveres do dia-a-dia, sem nunca viver para eles. O nosso sucesso, a estima que tiramos disso, os programas que podemos elaborar estão sempre subordinados ao amor de deus que está em nós que passa através de nós.
Esse “caminho inteiramente novo”, aparentemente dulcíssimo e realmente ao alcance de todos, é tudo aquilo que de mais radicalmente exigente se possa imaginar: é o caminho da cruz. Entretanto, há um segredo para torná-lo ainda mais praticável.
“Ser cada vez mais da Imaculada, aprofundar em direção ao Sacratíssimo Coração de Jesus e para as manifestações do seu amor. O seio da Imaculada, a vida oculta em Nazaré, a atividade apostólica, a paciência na perseguição, a pobreza, etc, a morte na cruz, a ressurreição e a Eucaristia”.
A consagração à Imaculada: eis as asas do amor! “Niepokalanów é como a casinha de Nazaré. Deus Pai é o Pai, a Imaculada é a mãe e a patroa da casa. Jesus no Santíssimo Sacramento do altar é o filho primogênito e nosso irmão. Por sua vez, todos os irmãos menores se esforçam em imitar o Irmão maior no amor e em prestar culto a Deus e à Imaculada, nossos pais comuns, enquanto que aprendem da Imaculada a amarem o divino Irmão maior”.
Na espiritualidade kolbiana, o caminho da infância espiritual desemboca naturalmente nos braços de Maria que, segundo Teresa, é a maior porque é a menor: “A estrada estreita do céu vocêa torna fácil praticando cada vez mais as virtudes humildes”. E recomenda: “Não tenha medo de amar demasiadamente Nossa Senhora; você nunca vai amá-la suficientemente; e Jesus ficará muito contente, porque Nossa Senhora é sua mãe”.
UM AMOR DESMEDIDO
Descobrir que se tem uma Mãe é fonte de alegria e de surpresa, como diante da inesperada exuberância do amor de Deus. Os santos não se cansam de contemplá-la, com palavras simples, mas… que causam vertigem: “Ó Maria, se eu fosse a Rainha do Céu e se vós fôsseis Teresa, eu gostaria de ser Teresa, para que vós fôsseis a Rainha do Céu!”.
São Maximiliano, filho da Igreja, aprofunda um sulco já traçado. Para nós, ele penetra no mistério do amor de Deus: “Quem ousaria supor que tu, ó Deus infinito, eterno me amaste desde séculos, ou melhor, antes dos séculos? De fato, tu me amas desde o momento em que existes como Deus, isto é, me amaste e me amarás desde sempre e para sempre!… embora eu ainda não existisse, tu já me amavas do nada à existência. Isso, porém, não era suficiente: para melhor me mostrar que me amavas com tanta ternura, desceste das mais puras delícias do paraíso para esta terra, levaste uma vida de pobreza e, enfim, desprezado e zombado, quiseste ser suspenso entre os tormentos num torpe patíbulo…
Tu, porém, não ficaste contente com isso: o teu coração não permitiu que eu tivesse que ter somente recordações do teu desmedido amor. Permaneceste nesta terra no santíssimo e mais do que admirável sacramento do altar.
O que é que tu ainda poderias me dar, ó Deus, depois de ter-te oferecido a mim em propriedade? O teu coração, ardente de amor para comigo, te sugeriu ainda mais um dom; sim mais um outro dom!… Tu mandaste que nos fizéssemos crianças, se quiséssemos entrar no reino do céu. Tu sabes muito bem que uma criança tem necessidade de uma mãe: tu mesmo estabeleceste essa lei de amor. Por isso, a tua bondade e a tua misericórdia criaram para nós uma mãe, a personificação da tua bondade e do teu amor infinito, e da cruz, no Gólgota, ofereceste-a para nós e nós para Ela… Além disso, estabeleceste, ó Deus que nos ama, que Ela devia ser a onipotente dispensadora e mediadora de todas as graças; tu não recusas nada a Ela, mas Ela também não é capaz de recusar nada a ninguém… Quem, portanto, poderá ainda se condenar? Quem não chegará ao Paraíso?”.
Denise Adversi
Missionária da Imacualda – Padre Kolbe
“… tu me amas desde o momento em que existes como Deus, isto é, me amaste e me amarás desde sempre e para sempre!” (São Maximiliano Kolbe)